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Maio
18
2020

O “não lugar da mulher negra”: do quartinho da empregada e “quase da família” a lugar nenhum

Fonte: Fabiane Albuquerque*, Retirado do Portal Geledés

Texto orginal: https://www.geledes.org.br/o-nao-lugar-da-mulher-negra-do-quartinho-da-empregada-e-quase-da-familia-a-lugar-nenhum/

Escrevo este texto no calor do momento após uma conversa com uma das minhas amigas pretas, muito querida. Falávamos da sua solidão e de uma vida de desenraizamento, após ela ter sido “dada” pela família no interior do Pará a uma senhora rica, branca do Estado de Goiás, aos 8 anos, com a promessa de estudar. E  como a maioria das meninas nessas condições, serviu a casa e a família por 13 anos. Passou a vida ouvindo da sua “benfeitora”: “essa é a menina que eu crio”  ou “é quase da família”, e até recebeu a permissão de chamar a tal senhora de “avό”, forma de reforçar a mentira. Quando ela percebeu que não era nada da família  e que sua situação era a mesma de muitas outras meninas negras que passara pela mesma casa  resolveu sair,  juntando assim suas coisas e caiu no mundo. Qual era o seu lugar? Foi então que eu lhe disse: “Seu lugar é o não lugar no mundo e vai precisar reconstruir o seu e isso demora anos”. Ela perguntou:“E se eu não conseguir?” Retruquei:“Consegue, consegue sim”. E me veio em mente uma histόria que lhe contei, porque histόrias curam, ressignificam vidas e jogam luzes em lugares escuros da nossa existência. 

A histόria que lhe contei é da mãe de uma das minhas melhores amigas que tentei de todos os jeitos publicar alguns anos atrás, sem sucesso, pois queria  lhe fazer alguma justiça.  Hoje com quase 70 anos, dona  Maria Eulália, mais conhecida como  dona Ola, fora sequestrada pelo próprio Estado quando tinha apenas 9 anos, em uma favela da cidade de Recife no ano de 1959. A “carrocinha” do juizado de menores, na época, passava pelas cidades recolhendo crianças pobres nas ruas, desacompanhadas dos pais, e nesse dia, para sua desgraça, ela e os dois irmãos mais novos, haviam desobedecido à mãe e saíram à procura de comida na linha do trem, jogadas pelos passageiros do lado de dentro. Saíram por tinham fome, enquanto a mãe fora lavar roupa no rio e nunca mais a viram, tampouco ela aos outros dois.  Dona Ola foi parar na casa de uma mulher muito rica, branca e algumas semanas depois como um presente à sua filha que morada no interior do Rio Grande do Sul, a menina fora colocada numa avião, sob o olhar atento do piloto  da companhia Cruzeiro do Sul, acontecimento esse que ela se recorda muito bem, até os mínimos detalhes. Sozinha, sem ninguém, aterrissou nas terras gaúchas até então  desconhecidas, e logo de início percebera que era diferente, não era branca como os moradores daquele lugar.  Aquele que disseram ser o seu pai a buscara no aeroporto e ao chegar em casa se lembra ainda da frase que a ferira profundamente, pronunciada pela senhora branca, “é isso aí que você chama de filha?” Foi então que ela percebeu que não seria filha de ninguém e não havia braços para recebê-la, tampouco afeto, amor e compreensão e que  ali  não era um lar, fora transformada na serva da família. Ela chorou por anos sozinha e sό o seu travesseiro é testemunho da sua solidão na ausência  de alguém que a ouvisse e  que a consolasse.  Aquele que deveria lhe proteger, o Estado brasileiro, fora o mesmo que a sequestrara da sua mãe e lhe destruira a existência e despedaçara seu Ser. 

Como a menina sό chorava, frase dita pela mulher da casa, ela foi então, mais uma vez dada, como um pacote descartável às freiras de um convento. E como dizem na minha terra, interior de Minas, ali “comeu o pão que o diabo amassou”. Sem laços, vínculos e ninguém por ela descobriu na sua forma mais crua o último lugar da mulher não branca na sociedade. Digo não branca porque dona Ola tem a pele clara, cabelos lisos pretos, mas não é suficientemente branca para o sul do país, em diversos lugares ainda muito eugenista.  Ela Saiu do convento porque maior de idade e ali não podia mais continuar. E quem a recebera de novo nesse mundão cruel? Ninguém. Ninguém para lhe ajudar a  juntar os pedacinho de si, perdidos pelo caminho, e foi fazer isso sozinha, na sua condição de desenraizamento se colocou ao trabalho de costurar os cacos e se refazer. Não foi fácil, não pôde sequer  casar-se com o homem que  amou porque não havia origem, família, nome, como exigiam muitas famílias do sul. Ela não havia casa, nem física nem afetiva, mas havia consigo estudo que recebera da instituição. Se casou com outra pessoa, “descasou”, casou de novo, teve três filhos, dentre eles minha querida amiga. Cuidou das crianças sozinhas e ainda conseguiu fazer faculdade de letras, prestando em seguida um concurso público para professora da rede estadual. Ela ficou no emprego até se aposentar. Foi fácil? De jeito nenhum. Teve sequelas? Muitas e muitas mesmo. Ela ainda está juntando os pedacinhos de si, além disso, essas sequelas vão desde uma anemia falciforme devido sua infância de pobreza e a falta de nutrientes desde os primeiros anos de vida, aos traumas do abandono, do corte brusco de vínculos e da violência que sofrera pelo caminho. Ola vira também um irmão morrer de fome e a solidão da sua mãe sozinha acudindo os outros três filhos  arrancados  delas da forma tão cruel e desumana.
 

A mãe de dona Ola deve ter morrido de desgosto e eu desejei muito, enviando sua histόria para diversos jornais e jornalistas que ela tivesse alguma justiça, pelo menos um reencontro com os dois irmãos. Ainda não conseguimos nada e dona Ola espera e nessa espera ela reinventa formas de existência. Ela lê muito, quando a visitei ela estava lendo Nietzsche e eu lhe enviei por correio meses atrás  o livro de Conceição Evaristo, “Insubmissas lágrimas de mulheres”, pois identifiquei umas duas histόrias  no livro muitos parecidas com a sua.  

Após contar tudo isso a essa amiga ela disse: “a sensação que tenho é de ser uma mulher despedaçada que tem que juntar os pedaços de si e eu sei que muitas que foram  quebradas assim como eu,  nunca conseguiram  juntar”. Ela tem razão, muitas não conseguiram juntar, outras passam a vida inteira juntando. 

Não é brincadeira essa  coisa de arrancar meninas de suas casas com a promessa de serem “quase da família”. Romantizamos essa relação desumana por séculos, pois ninguém, nem por comida, nem por estudo, deveria ser privado de seus laços primordiais. As conseguencias são devastadoras para a vida dessas mulheres, pois saindo da casa que servem por anos, não têm laços nem com a família de origem, nem com a família onde cresceram, pois na maioria dos casos, a única relação  com essa ultima é aquela do trabalho e da exploração. Em geral, essas meninas não fizeram amigos, pois como moravam nos locais de trabalho, é difícil cultivar uma vida privada, levar amigos em casa ou visitá-los nas suas. Essa relação é subestimada ainda hoje e quando se tornam  mulheres se descobrem de lugar nenhum. 

Algumas delas envelhecem ao lado da senhora branca e ali morrem, pois é o único lugar que ainda podem se sentir “seguras” e as que saem se sentem tão perdidas e fora de tudo que essa dor é quase insuportável. Muitas nutrem grande raiva da família de origem por tê-las deixado ir, como uma amiga do Tocantins que fora dada à avo no Maranhão porque a mãe não podia cuidar dela e da casa da avό passou para a casa de uma família “benfeitora” classe média e ali serviu até se tornar adulta. Ela não se sentia em casa  nem com a mãe, nem com a avό e tampouco nessa casa onde trabalhou. Nossos caminhos se cruzaram em Goiânia e ela ainda procurava, aos 30 anos, seu lugar no mundo.  

Esse país despedaça mulheres negras, as desenraizam e depois as culpam pelo degrado da sociedade, por terem muitos filhos, por receberem bolsa família e até por serem abandonados pelos maridos.  Esse país tentou impedir a PEC das domésticas, minha gente, a mesma  que regula a profissão, outrora tida como trabalho gratuito retribuído com um quarto e um prato de comida, quando não, com as  roupas usadas da patroa, tida como “caridosa” e “benfeitoria”. Essas mulheres pretas deixam essas casas  depois de 10, 20 e até 30 anos, sem dinheiro, bens, aposentadoria, apenas com a roupa do corpo e ainda lhes cobram gratidão. Ahhh meu Brasil, como lhe odeio por isso! 

Dona Ola tem 70 anos hoje e quantas ainda se encontram na mesma condição!?  Quem lhe restituirá a histόria e a família arrancada dela ainda tão pequena? 

Quero sό dizer que essa condição não é culpa sua,  minha amiga, não é porque você vale  ou valia menos, mas é onde te colocaram todos aqueles  e aquelas que deveriam lhe proteger. E eu não romantizo essa situação dizendo que vai acabar tudo bem  e que sua vida será flores, que a felicidade está dentro de você, basta pensar positivo. Bobagem! Nunca será. Mas o que posso lhe assegurar é que vi dona Ola e  como   ela construiu um espaço físico (uma casinha com plantas, livros), mas também formas de lidar com os cacos que as vezes saem do  lugar e furam a carne. Ela está viva e não sό, ela toca violão, ela canta, ela lê, ela contribui com a comunidade dela e ela escreve muito bem, mas muito mesmo. É preciso achar formas de encontrar uma “flor na senzala”, metáfora usada por Robert W. Slenes ao falar da vida nesse lugar de tamanha desumanização. E eu quero poder contar sobre dona Ola para todas aquelas que eu conhecer.  Termino enviando meu abraço a todas que estão juntando os pedacinhos de si, em todas as cidades do Brasil ou fora dele, casadas ou solteiras, empregadas ou a procura de emprego, doentes e curadas, com depressão ou que apenas saiu de uma, com sonhos, de luto, àquelas que desistiram de si e as que se agarram a um últimfio de esperança todos os dias.  

 

Fabiane Albuquerque é sociόloga, doutoranda em sociologia pela UNICAMP, trabalha com o tema do corpo migrante 


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.